Conto de Natal

Sempre adorei o Natal, não por motivação cristã, mas obviamente pelos presentes, a comida e a festa. Éramos uma grande família, chegavamos de todos os cantos do Brasil e do mundo para a reunião anual da família Brasil, regada a álcool, comida, musica e intrigas familiares. Em Belém, do Pará. A festa de natal era ocasião de nos reencontrarmos após a longa separação, irmãos, primos, pais e filhos, avós e netos, amigos de família solitários para relembrar o passado e ter novas noticias do que cada um tem feito "Quem te viu quem te vê!", "Como ele cresceu já é um rapaz!", "Você viu como ela engordou", "Nossa menina, você esta linda"... Os clichês dos reencontros natalinos . Eu era uma das crianças que vinha de longe, e era regado de atenção dos avós . Sempre recebia ótimos presentes e muitos mimos, observava com vontade de participar daquela movimentação, assim tomei meu primeiro porre familiar. As pessoas crescem, e as famílias mudam, aquela maravilhosa confusão, cheia de cores, simbolos natalinos, sorrisos, choros, brigas, vinho, suor, beijos, embrulhos, abraços e mais beijos; já não há lugar como antigamente, a transição familiar deu lugar a solidão dos que partiram para começar suas novas vidas e dos que ficaram a espera, ou dos que relembram saudosistas as velhas crianças com sorriso fácil.

Vou tentar fazer um pequeno conto de natal...

O Taxista e o Peixe vermelho

Era uma noite fria de natal em Madrid, Juan sempre trabalhou nos dias de natal, ganha-se bastante, a movimentação de passageiros sempre é grande e as ruas estão vazias. Era feio e tímido, mas isso não importa, já estava acostumado a estar sozinho. A castellana estava toda iluminada, gostava das luzes natalinas, lembrava dos pais no México que estariam certamente festejando entre amigos e familiares.
O radio chamou, calle Juan Bravo, virou à direita. Uma família esperava frente a um prédio luxuoso, o casal carregava os vários presentes da menina, esta, segurava um saco de água com um peixe vermelho dentro. "Calle Villalar por favor", no trajecto a menina dormiu, ficara acordada para descobrir o papai noel, mas como sempre as crianças não tinham o direito de estar na sala quando o dito cujo fazia sua aparição. Ganhou bastante presentes, e ganharia mais no dia dos reis. O casal desceu do carro a senhora pagou enquanto o homem levava a filha adormecida.
Juan raramente dormia a noite. Pensou em ligar aos pais mas não tinha nada para contar.
Seguiu dirigindo admirando as belas decorações dos grandes apartamentos do bairro, até que percebeu o peixe.
O peixe vermelho estava no banco de Trás. Juan não entendia nada de peixes mas sabia que era bonito, perdeu certamente a oportunidade de ingressar em um belo aquário na casa daquela família e passaria sua breve vida num pequeno saco plástico.
Juan pensou que o máximo que poderia fazer por aquela criatura era a depositar na central, mas obviamente não seria devolvida.
Colocou-o no banco do passageiro e seguiu para a próximo corrida.
O cliente, era gordo, abriu a porta da frente e disse: "Esta molhado, vou atrás". Juan percebeu que o saco estava furado e a agua vazava lentamente condenando em breve o peixe vermelho a ter uma morte lenta e sofrida.
O senhor morava longe, Juan levou-o o mais rápido que pode, enquanto observava o saco a murchar. Conduzia rápido na rua vazia, o senhor disse que não tinha pressa, em seguida insistiu dizendo que não queria morrer naquela noite. Reduziu a velocidade, estava quase chegando. O homem jogou o dinheiro e saiu furioso batendo a porta.
Juan pegou o saco na mão, e a pouca agua que havia de inicio já estava pela metade.
O taxista retomou o volante, e ia em Direcção ao centro da cidade enquanto procurava alguma loja que ainda estivesse aberta para pedir um saco e um pouco de agua. Naquela hora e naquele dia festivo estava tudo fechado. Quase não havia mais agua no saco quando Juan encontrou um restaurante aberto. Foi barrado na porta, taxistas mexicanos não eram clientela comum que o maitre estava habituado a receber. Pensou que seria ridículo insistir dizendo que precisava de um pouco de agua urgentemente para salvar um peixe, que nem era seu, agonizando dentro do carro.
Quando Juan voltou ao veiculo o saco estava seco. O peixe agonizava debatendo-se, um peixe fora da agua. O taxista dirigia, pensou em mata-lo para evitar o sofrimento, mas não queria sujar o carro que não era seu. O peixe ia dar seu ultimo suspiro seco quando o taxista viu Neptuno, o deus dos mares, na sua frente.
Juan passava pela Plaza de Cánovas del Castillo, a grande fuente de Neptuno chamou sua atenção, não hesitou, parou o carro, saiu com o peixe na mão jogou-o na fonte ícone da cidade, que apesar de não ser litorânea tem o pescado mas fresco da Espanha.

FIM
Neste momento leio, "As Intermitências da Morte" , de José Saramago. Para quem nunca leu sua obra, aconselho fortemente a começar por "Ensaio sobre a cegueira". Chocante.


Espero que tenham gostado
Um abraço
Feliz Natal
Fabio Brasil