Eu estava trabalhando na recepção do hotel, era uma noite calma com poucos clientes. Já eram as 11 e eu estava a ler o jornal The Guardian do dia anterior , questão de praticar um pouco a leitura em Inglês.
Chegou esse cara, um cliente do hotel, um americano alto meio desajeitado vestido a rigor da sua religião, não vou dizer qual é, passou pelo hall e me disse "Bonjour Moonsieur", apesar de já ser noite respondi o bonjour cordialmente. Ele ficou parado na minha frente me olhando calado como se quisesse dizer algo. Ficamos num silencio desconfortável durante um bom minuto.
O individuo rompeu o silencio perguntando se eu tinha um jornal Francês com o caderno de classificados, dei-lhe então o Figaro do dia. Ele ainda ficou um tempo com o jornal na mão me olhando sem dizer nada. Fingi que fazia outra coisa para não encarar-lo. O homem desistiu do contacto visual e precipitou-se ao elevador.
Passado meia hora, o homem desceu novamente à recepção, veio com o jornal na mão e abriu o caderno de classificados. Ele chamou minha atenção, dizendo que não conseguia ler os anuncio porque estavam em Francês e pediu para que os traduza. Inocentemente, peguei o jornal e perguntei que parte ele queria que eu lesse. O homem ficou sem jeito e depois de um certo esforço da sua parte acabou finalmente dizendo quais eram suas intenções, ele queri que eu achasse um anuncio de "meninas" que poderiam vir ao seu quarto para uma pequena diversão. "I see"... Passei o olho no jornal (precisando que é um dos jornais mais sérios do pais) e não achei nada, somente anuncios para relações a longo prazo , nada de sacanagem a vista. "I'm sorry, sir". Traduzi alguns para mostrar que não estava de ma vontade, do tipo: Caroline, viúva de 50 anos procura parceiro para compartilhar bons momentos, gosto de artes e um bom vinho à lareira. O homem que ficou bem desapontado.
Ele perguntou então se eu não tenha nenhum outro jornal que poderia ter o tipo de oferta que estava procurando. "Sorry". Não tenho, mas graças a minha experiência de leitura dos classificados parisienses, adquirida na procura de apartamento, E NADA MAIS, lembrei que haviam, o que esse senhor procurava, em certos jornais distribuídos gratuitamente nos metros da cidade. Quando disse-lhe isso, uma expressão de esperança surgiu e rapidamente ele ganhou a porta de saída e correu em direcção ao metro mais próximo que fechava em alguns minutos.
Alguns instantes mais tarde, o homem voltou da sua excursão bem sucedida, com um periódico na mão e um grande sorriso no rosto.Engraçado, parecia que já éramos amigos, ele vinha com a pagina na mão extendida mostrando-me uns anuncio com fotos nada convencionais para o homem de respeito que ele aparentava ser. Dando a maior bandeirada. Ainda bem que não havia mais ninguém na recepção, só eu, o estudante recepcionista, e o homem religioso vestido a rigor com um jornal na mão, meia noite de um domingo invernal. "Look, I found". "Ok, let me see" . Peguei o jornal discretamente e analisei os textos. Alarme falso, apenas anuncio de disque-sexo, com mulheres nuas para atirar a atenção. "Sorry". Disse eu novamente, e ele quase chorou, foi difícil convencer-lo de que aquelas ofertas não eram o que ele procurava. "I don't understand". Dizia o homem, apontando para as fotos das damas em posições extravagantes com números de telefone indicados. Imaginem a situação, um jovem recepcionista traduzindo anuncios de disque-sacanagem para um religioso. Ele não queria acreditar, e nem eu acreditei quando ele pediu para ligar para um dos anuncio do seu celular. Confesso que estava me divertindo, não com ele, mas com aquela situação sureal. Liguei, e instantaneamente caiu numa gravação, para desespero do homem, aquele não era um anuncio de p****. Dei-lhe o jornal e disse mais uma vez, "sorry". Pensei, vai ter que ficar na mão. O homem despediu-se dizendo que ia tentar a sorte pela cidade e saiu a pé. Pensei :duvido, estamos no bairro gay e artístico da cidade, a zona fica longe ao norte.
Já era uma da manha, a maioria dos clientes haviam voltado, eu só esperava aquele senhor para fechar as portas e apagar as luzes. Bom, já que ele não chega, é porque achou o que procurava, e comecei a terminar o que tinha pra fazer, quando, "Hello!", me apareceu o cara, abraçado a uma dezenas de jornais classificados, com um grande sorriso. "Look, now we will find them!". Haja paciência meu senhor, em Paris, as 2 e tal da manha até as putas estão dormindo.
Disse, em outras palavras... Recolha seus jornais e mostre-os amanhã a noite ao próximo recepcionista, hoje, a noite acaba na mão. O recepcionista do dia seguinte, Arthan, não comentou nada, o velho deve ter recebido uma chamada da mulher ou sei la, só sei que não repetiu a historia.
De qualquer jeito fiquei com essa imagem na cabeça e resolvi escrever, talvez seja até maldade eu estar comentando as frustrações daquele homem religioso, mas não tenho a intenção de ridicularizar ninguém apenas contar uma anedota dentre as varias que presenciei trabalhando no Hotel.
Outra coisa...
Bom, tentei fazer o upload do meu primeiro filme, mas só consegui por um trecho. Resumindo, a historia, é sobre uma senhora Israelita que volta a Paris e visita o quarto de residencia universitaria em que morou a 50 anos atrás. Actualmente no quarto mora um jovem colombiano.
Eles vão partilhar os souvenirs da senhora durante a visita, sugue uma linguagem poética no tom da nostalgia... Com vocês um trecho do filme Chambre 124.
Fiz também o upload de algumas fotos que tirei durante uma viagem em uma pequena cidade de Portugal, Arraiolos. Montei um pequeno Diaporama dessas imagens, boa visionagem.
Um abraço Fabio Brasil